

MANIFESTO
Diálogos com a terra nasce de uma premissa:
"o suporte antecede o movimento" (Bonnie Bainbridge Cohen)
A partir de um aprofundamento nos estudos das nossas estruturas de suporte e das forças de oposição que arquitetam um movimento, entendemos que a cada vez que empurramos o chão, o chão nos empurra de volta. Existe ali um diálogo, uma conversa com o chão numa relação cíclica que inaugura ritmos e atualiza, a cada instante, aquilo que apoia, nutre e sustenta a vida.
Reconectar-se com o chão é urgente!
A maneira como o mundo opera se reflete na maneira como estruturamos nosso corpo, e vice-versa. Se construímos um mundo fragmentado, onde estabelecemos uma relação hierárquica entre intelecto e intuição, desequilibramos também o funcionamento do nosso corpo, acumulando demasiada energia na cabeça, exaurindo a parte superior e perdendo contato com o chão.
Quando perdemos o chão, nos desconectamos daquilo que nos apoia e nos nutre, a terra. E sem suporte nem nutrição, seguimos construindo um mundo fragmentado, doente e violento.
Essa pesquisa propõe o resgate de inteligências corporais historicamente silenciadas, como um ato de resistência às narrativas que domesticam os corpos, regulam seus impulsos e enfraquecem sua capacidade de sentir, imaginar e se organizar coletivamente.
O PERCURSO
Este é um percurso de investigação somática em três encontros, onde vamos explorar as relações entre chão, pelve e movimento como gestos político-eco-somáticos que se entrelaçam, abrindo espaço para uma reaproximação entre pensamento e instinto.
Através de estudos do corpo, imagens, ideias, dança, jogos e práticas somáticas, vamos investigar como: o corpo se organiza a partir dos apoios; a pelve sustenta e mobiliza a força vital; e a brincadeira pode ser uma ética de relação e presença.
O percurso se organiza a partir da compreensão de que aquilo que nos apoia pode se estruturar em três níveis interdependentes:
o chão, os suportes internos e o suporte coletivo/relacional.
Esses três níveis se articulam a partir da imagem simbólica da árvore como eixo pedagógico:
Raízes — o que sustenta invisivelmente
Tronco — o que distribui, articula e transmite
Copa — o que se expande, comunica e se relaciona
A estrutura da árvore nos ajuda a lembrar que
não se sustenta superfície sem profundidade, que
a expressão não se manifesta sem contorno e estrutura
e não existe indivíduo sem coletivo, nem coletivo sem indivíduo.
Investigar as ecologias do corpo é, portanto, um gesto de reconexão — com a terra que nos sustenta e nutre, com os ritmos que nos atravessam e com formas mais vivas de estar em relação.
CRONOGRAMA
Os encontros configuram um percurso, portanto não podem ser feitos em separado, a proposta é justamente percorrer um caminho.

No 1º encontro, estabelecemos a base do (per)curso. Investigamos o chão como aquilo que nos sustenta, regula nossa relação com a gravidade e nos oferece impulso. Mas não só, também como aquilo que a modernidade aprendeu a evitar.
Vivemos em uma cultura que iluminou excessivamente a cabeça. Elevamos mesas, cadeiras, prédios e ideias. Erguemos o pensamento ao topo da hierarquia e relegamos ao chão o lugar sujo, inferior, que deve ser limpo, esterilizado e contido.
Cimentamos a terra fértil e tornamos o chão onde pisamos uma superfície estéril, suja e previsível.
Quando o chão vira algo a ser evitado, o corpo se organiza para não cair. E um corpo que não pode cair não confia, e muito menos arrisca.
Perdemos capacidade de nos abaixar, de sentar no chão e levantar de volta, de mexer na terra com as mãos e caminhar por terrenos irregulares. Perdemos mobilidade nos quadris, elasticidade nas articulações e capacidade de negociar com a gravidade.
Perdemos o chão.
Neste encontro, proponho um gesto simples e radical: descer.
Através de práticas de aterramento, escuta sensorial e movimento, vamos investigar como o corpo se reorganiza quando reconhece o chão não como ameaça, mas como parceiro. Como a qualidade do contato com a terra influencia nossa estabilidade, nossa disponibilidade e nossa presença.
Encontrar táticas para manter o contato com o chão como uma prática de lembrar. Lembrar daquilo que nos oferece suporte, impulso e nutrição e nos mantem vives.

No 2º encontro, com a raiz já estabelecida, deslocamos a investigação do chão externo para os nossos suportes internos.
Se no primeiro encontro perguntamos “onde pisamos?”, agora perguntamos:
o que nos sustenta por dentro?
Aprofundamos a escuta da estrutura óssea, dos diafragmas musculares e, especialmente, da pelve — essa arquitetura viva que organiza peso, direção e impulso.
Vivemos em uma cultura que fragmentou o corpo. Separou razão de intuição, cabeça de pelve, produção de prazer. A pelve, historicamente, foi associada ao excesso, ao descontrole, ao pecado, à sexualidade a ser contida.
Aprendemos a tensionar o assoalho, a retrair o abdômen, a endurecer o centro.
Mas um centro endurecido não sustenta — ele bloqueia.
A pelve é ponte.
Articula céu e terra, cima e baixo, dentro e fora.
É centro de gravidade, mas também centro de memória.
Ali se organizam impulsos primários de sobrevivência, prazer, defesa e criação.
Quando perdemos contato com essa região, perdemos também a capacidade de negociar apoio e expansão. Ou colapsamos, ou rigidificamos.
Neste encontro, investigamos como a estrutura óssea pode ser aliada — não como rigidez, mas como arquitetura de suporte. Como os diafragmas criam ritmos internos de pressão e descompressão. Como a pelve pode voltar a ser um lugar de articulação viva, e não de contenção.
Se o primeiro encontro nos ensina a confiar no chão,
o segundo nos convida a confiar no centro.Reativar a pelve é reativar potência.
É permitir que o movimento não venha apenas da cabeça que decide, mas do corpo que sente, deseja e organiza.

No 3º encontro, com a base enraizada e a estrutura interna desperta, investigamos a malemolência como qualidade de adaptação, escuta e fluidez.
Se o primeiro encontro nos ensinou a confiar no chão,
e o segundo a habitar o centro,
o terceiro pergunta:
o que acontece quando o corpo que confia começa a se relacionar?
Malemolência é inteligência de ajuste fino.
É a capacidade de ceder sem colapsar,
de sustentar sem endurecer,
de mudar de direção sem perder o eixo.
A malemolência emerge quando há segurança suficiente para arriscar.
Quando o sistema nervoso não está em alerta constante.
Quando o suporte já foi reconhecido.
É aí que a brincadeira se torna possível, e entra como uma tecnologia relacional.
Brincar cria campo comum.
Suspende hierarquias rígidas.
Permite experimentar papéis, ritmos, distâncias.
Sustenta a coexistência das diferenças sem precisar anulá-las.
Neste encontro, abrimos espaço para a improvisação, para o encontro com o outro e com o coletivo. Investigamos como o desejo pode ser guia, como força orientadora que nasce do corpo.
Se a raiz nos ancora
e o centro nos organiza,
a malemolência nos conecta.
Ela nos lembra que viver é dançar com o imprevisível.
E que a política do corpo também pode ser feita de jogo, presença e alegria compartilhada.
Informações práticas
- 3 Encontros prático-teóricos online e ao vivo
- Acesso às gravações por 6 meses
- Grupo privado para partilhas e comunicações relativas ao percurso
- Os encontros configuram um percurso, portanto não podem ser feitos em separado, a proposta é justamente percorrer um caminho.
- Inscrições encerradas. Se tiver interesse em participar da próxima edição, deixe seu email aqui embaixo:


Flora Mariah
Sou artista da dança, brasileira, educadora do movimento somático, estudante da pelve, mãe de dois, imigrante e pesquisadora das ecologias do corpo. Com uma família multi-nacional, tenho estado em trânsito entre Hungria, Portugal e Brasil.
Formada pela Escola Angel Vianna e pelos carnavais da vida, trabalho a partir da matéria — ossos, carne, fluídos, peso e chão — para abrir espaço de passagem para o movimento em suas múltiplas dimensões: mecânica, emocional, energética e simbólica.
Desde 2018 investigo a pelve como território de atravessamento entre força e vulnerabilidade, expansão e suporte, ação e escuta — o que me levou a aprofundar também o estudo da relação do corpo com o chão e com a gravidade como campos de memória, orientação e apoio.
Cultivo experiências onde o corpo pode se reorganizar a partir dos apoios, reconhecendo que é no encontro com o suporte que o movimento emerge com mais presença. As minhas práticas buscam abrir caminhos de autoexpressão e reconexão do corpo com a alegria, a disponibilidade e a brincadeira — como formas de inteligência intuitiva e relacional.